X-Men: Apocalipse

O clássico problema da ótima direção não salvar um roteiro ruim. E, neste caso, o roteiro consegue construir a história mais fraca desde que “X-Men: O Filme” (do mesmo Bryan Singer, em 2000) deu à luz à série.

O nível de mega-catástrofes nesses filmes vem crescendo vertiginosamente, o que acaba por tornar os cenários os reais inimigos dos heróis. Utilizando “matte paintings” rebuscados, mas cada vez mais plásticos e carentes de criatividade, o pelotão de artistas digitais aumenta cada vez mais nos créditos finais.

E a mesma coisa pode-se dizer do pelotão de heróis e vilões, que aqui ainda possuem a problemática de, por serem mutantes, exigir poderes especiais, que por sua vez exigem cada vez mais usos originais de combiná-los. Se essa necessidade foi muito bem utilizada em Dias de Um Futuro Esquecido, que até então ocupava a posição de X-Men menos excelente – ainda sendo ótimo – aqui eles soam repetitivos em segundo, terceiro e quarto atos que não terminam nunca.

Sem contar que parece obrigatória a presença de praticamente todos os personagens anteriores, com menção honrosa a mais uma participação de um desgastado certo amigo de garras (cujo nome ninguém precisa sequer mencionar, mas é mencionado de qualquer jeito). É como se houvesse fãs para todos eles, e é preciso mostrá-los em ação para não correr o risco mercadológico de perder mais um punhado de ingressos. Até suas participações, embora divertidas – como a do personagem de Evan Peters – soam gratuitas e apenas de passagem.

E dessa vez Singer se entrega de vez à fórmula da Marvel e dos X-Men, ao transpor esse universo com todas as letras, trejeitos, cores e emblemas. Até um jovem Xavier precisa a todo custo usar um terno azul com sua nova careca, o que soa tão televisivo quanto a série animada (ainda mais se notarmos que ele começa o longa vestindo camisetas despojadas combinando com seu belo (des)penteado).

Além do mais, não querendo igualmente trair a fascinação dos que consideram “X-Men: Primeira Classe” como o melhor da série – eu incluso – por causa da construção dramática de seus personagens estar aliada diretamente à ação, aqui o filme descaradamente copia o mesmo mecanismo em conflitos e dramas pontuais dos protagonistas, mas não fornece material novo da relação entre Magneto e Xavier, por exemplo, e sequer oferece os ótimos embates verbais entre os dois nos primeiros três filmes, interpretados pelos excelentes Patrick Stewart e Ian McKellen, se tornando apenas um plágio barato da série onde se situa. Com isso, desperdiça momentos icônicos de suas histórias, como a pesada perda da família e um reencontro inusitado com um interesse amoroso (talvez inusitado até demais), jogando de volta os mesmos dramas dessas duas pessoas na lata do lixo.

E se em First Class podemos sentir a atmosfera dos anos 60, da Guerra Fria até o design futurista retrô dos ambientes, agora, nos anos 80, o máximo que o filme faz é usar Ms. Pac Man, sendo que o fliperama poderia existir muito bem em 2016, como tantos nerds insistiriam em ter no porão da casa de suas mães – onde morariam.

Aliás, por falar em detalhes técnicos, é preciso ressaltar a total incapacidade de se criar uma música-tema em torno de uma trilha sonora monótona que, se exige algo de divertido, é também plagiar um ícone da ficção-científica: Duna. O filme consegue aborrecer pela beleza vazia de suas sequências que deveriam nos tirar o fôlego plagiando também no caminho “Matrix Revolutions”, com o movimento de gigantescas nuvens de metais esvoaçando exatamente igual ao enxame de sentinelas invadindo Zion. E o que dizer de mais uma vez a falta de criatividade dos idealizadores, focando basicamente na cidade de Nova Iorque sendo despedaçada por um efeito de nível mundial?

O mais decepcionante, porém, em “X-Men: Whatever”, é que ele até coloca seus heróis em posições de conflito, mas em momento algum nos entrega um gostinho sequer de perigo ou até de duelo. Até o igualmente medíocre “Capitão América: Guerra Civil” consegue algo melhor. O único grande risco que a turma de Xavier poderia sofrer seria a morte de bilhões de humanos, que, diga-se de passagem, raramente aparecem na tela. De certa forma, este é um filme feito de mutantes para mutantes. E se você não se considera um, pode reclamar que não está sendo representado. Quem sabe juntos não fazemos uma petição por um filme mais… humano?

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-06-27 imdb