Your Name

2017/10/31

Para os que estão acostumados com os média-metragens do diretor/roteirista Makoko Shinkai, como O Jardim das Palavras, vão perceber uma característica marcante em seu novo trabalho, Your Name: não há aqui uma história completa a ser contada; mas sensações. É a jogada de uma miscelânea de ideias cativantes, como se colocar no lugar do outro, que dá origem à sua essência, que é explorada inúmeras vezes em lindas sequências de animação.

Isso é cinema? De certa forma, sim. Cinema não é apenas utilizar uma história onde de fato existem personagens (mais tarde sobre isso) e coisas acontecem, interligadas de maneira coerente. Vimos nessa Mostra o novo (e último) filme de Abbas Kiarostami onde existem apenas 24 frames, não necessariamente conectados e onde não há personagens que continuam no tempo. Entre esse tipo de cinema experimental e o consagrado drama em três atos idealizado por Aristóteles há um enorme degradê. Não existe regras. Apenas o que funciona melhor.

E como experiência estética Your Name funciona maravilhosamente bem, pois ele usa um conceito simples e vai explorando em sequências deslumbrantes. Note como o giro em 3D de um cenário inicialmente em 2D coloca um dinamismo na narrativa. E como as rimas de portas se abrindo e se fechando no meio, assim como vermos os personagens frequentemente com as mãos apoiadas em uma parede de vidro dão a ideia de separação, isolamento. Pois seja a porta do metrô ou as paredes de um elevador, o que vemos é um apanhado de pessoas juntas, “presas” em um lugar, e cada uma solitária à sua maneira.

Solitárias e desconhecidas. A pergunta mais relevante deste longa não é “qual o seu nome?”, mas “quem é você?”, escrita em um caderno e no corpo da própria pessoa que se quer conhecer. Note que apesar de um ocupar o corpo do outro por um dia nenhum deles consegue de fato entender quem é seu receptáculo, mas apenas imprimir cada um seus próprios traços de personalidade, e gênero. A masculinidade e feminilidade dos dois interfere na vida do outro de diversas maneiras. De certa forma o filme quer nos mostrar um pouco também da forte estratificação cultural dos gêneros na cultura japonesa.

Tudo isso me lembra da historinha. Esqueci de contar. É porque ela não é tão relevante, nem tão grande. É sobre uma garota do interior e um garoto da cidade grande. Ambos trocam de lugar durante alguns dias, mas apenas suas mentes. O corpo permanece o mesmo. Há uma jogada muito esperta a respeito das memórias de ambos ficar confusa, pois do contrário a nossa vai ficar. Afinal de contas, eles lembram de si mesmos, um pouco do outro, mas convenientemente nada que permita que eles se comuniquem no mundo real (nem que percebam um detalhe vital que será revelado). No dia seguinte tudo é esquecido, mas de vez em quando um deles lembra de algo para efeito dramático.

A história em si segue seus próprios passos e é esperta o suficiente para jogar detalhes que tornem tudo mais ou menos amarrado. Assim, detalhes do dia-a-dia de ambos são usados para a passagem do tempo, como o garoto e seus amigos sempre tomarem café no mesmo lugar. E ambos, é claro, mantém diários onde trocam impressões. E fazem até acordos de como devem se comportar.

É preciso dizer que praticamente não conhecemos muito sobre eles. Apenas detalhes genéricos. Eles são muito mais conceitos do que pessoas. Ideias. É como contamos histórias como essa quando somos adolescentes. “Imagina trocar de lugar com uma pessoa.” E quando temos alguns detalhes eles são estranhos, jogados. Como a garota ser filha do prefeito. Que faz campanha eleitoral em uma cidade com 1500 habitantes e faz ela passar vergonha em público. Tudo gratuito ou conveniente para o terceiro ato.

Não. A história de Your Name não é seu ponto forte. Os conceitos e a estética são. Um cometa que passa apenas em 1200 anos. Lendas desconhecidas sobre os deuses do passado. O cometa se divide em dois. Ele continua sendo apenas um? O filme divide os seus protagonistas em dois. São eles apenas um? Somos nós todos apenas um?

Shinkai, além de dirigir e escrever a história, assina a fotografia e a edição. Tantas funções acumuladas lhe dão um controle absoluto de cada quadro que pretende retratar no filme, mas ao mesmo tempo lhe dá uma visão uníssona, monopolizadora de ideias. Tudo gira em torno dos mesmos conceitos. Não nos livramos da psique do seu criador em nenhum âmbito que valha a pena observar. E tudo isso cansa, é repetitivo, não leva a muitos lugares, o que é um grande pecado para um filme que possui tantos simbolismos embutidos…

Não, Your Name não é toda essa profundidade. Ele gostaria, fica claro. Mas no caminho há ótimas músicas selecionadas para o filme, tocadas em momentos aleatórios. Bom, quem se importa? Aprecie a viagem e observe a beleza de uma poesia transformada em animação pop.

★★★☆☆ Kimi no na wa.. Japan, 2016. Direction: Makoto Shinkai. Script: Makoto Shinkai. Clark Cheng. Cast: Ryûnosuke Kamiki (Taki Tachibana). Mone Kamishiraishi (Mitsuha Miyamizu). Ryô Narita (Katsuhiko Teshigawara). Aoi Yûki (Sayaka Natori). Nobunaga Shimazaki (Tsukasa Fujii). Kaito Ishikawa (Shinta Takagi). Kanon Tani (Yotsuha Miyamizu). Masaki Terasoma (Toshiki Miyamizu). Sayaka Ohara (Futaha Miyamizu). Edition: Makoto Shinkai. Cinematography: Makoto Shinkai. Soundtrack: Radwimps. Runtime: 106. Ratio: 1.78 : 1. Gender: Animation. Release: October 2017. Category: movies Tags: cinema

Share on: Facebook | Twitter | Google